a. A Escatologia na Filosofia e na Religião
a.1 A Questão escatológica é uma Questão natural: Alguma doutrina das últimas coisas não é coisa peculiar a igreja cristã. Onde quer que as pessoas tenham refletido seriamente sobre a vida humana, seja no indivíduo, seja na raça, não inquiriram apenas donde ela surgiu e como a veio a ser o que é, mas também para onde está destinada. Elas levantaram a questão, qual é o fim ou o destino final do indivíduo, e qual a meta rumo à qual a raça humana está se movendo? O homem perece na morte, ou entra noutro estado de existência, quer de bem-aventurança, quer de infortúnio? As gerações dos homens virão e passarão, numa sucessão interminável e finalmente sucumbirão no esquecimento, ou a raça dos filhos dos homens e toda a criação estão a mover-se para algum telos divino, para um fim que lhe foi designado por Deus? Só os que crêem que, assim como a história do mundo teve um princípio também terá um fim, podem falar de uma consumação e podem ter uma doutrina da escatologia.
a.2 A Questão da Escatologia na Filosofia: A questão do destino final do indivíduo e da raça ocuparam importante lugar nas especulações dos filósofos. Platão ensinava a imortalidade da alma, isto é, sua existência continuada após a morte, esta doutrina persistiu como um importante dogma da filosofia até a época presente. Spinoza não teve lugar para ela em seu sistema panteísta, Wolf e Leibnitz falavam sobre a imortalidade da alma; Kant dava ênfase à insustentabilidade desses argumentos, mas, não obstante, conservou a doutrina da imortalidade como um postulado da razão prática. Os estóicos falavam de sucessivos ciclos de mundos, e os budistas de eras de mundos, em cada um das quais um novo mundo aparece e volta a desaparecer.
a.3 A Questão da Escatologia na Religião: É especialmente na religião que encontramos concepções escatológicas. Mesmo as religiões falsas, tanto as mais primitivas como as mais evoluídas, têm sua escatologia. O budismo tem o seu nirvana, o maometanismo o seu paraíso sensual, e os índios americanos os seus felizes campos de caça. Mas, é somente na religião cristã que a doutrina das últimas coisas recebe maior precisão e traz consigo uma segurança que só pode ser divina. Naturalmente, os que não se contentam em descansar sua fé exclusivamente na Palavra de Deus, mas fazem depender da experiência e das produções da consciência cristã, estão em grande desvantagem aqui. Embora possam experimentar um despertamento espiritual, a iluminação divina, ao arrependimento e a conversão, e possam observar os frutos da graça em suas vidas, não podem experimentar nem ver as realidades do mundo vindouro. Terão que aceitar o testemunho de Deus a respeito delas, ou que continuar andando às apalpadelas no escuro. Se não desejam construir a casa da sua esperança em vagas e indeterminadas aspirações, terão que retornar ao firme fundamento da Palavra de Deus.
b. A Escatologia na História da Igreja Cristã
O cristianismo nunca olvidou as gloriosas predições concernentes ao seu futuro e ao futuro do cristão individual. Às vezes, porém, a igreja, subjugada pelas preocupações da vida ou enredada em seus prazeres, pouco pensou no futuro. Além disso, sucedeu repetidamente que ora pensava mais num elemento particular da sua esperança futura, ora noutro. Nas épocas de apostasia, a esperança cristã às vezes ficava obscurecida e incerta, mas nuca se extinguiu completamente. Ao mesmo tempo, deve-se dizer que jamais houve um período da história da igreja em que a escatologia fosse o centro do pensamento cristão.
Na caminhada da igreja, pode-se distinguir três períodos na história do pensamento escatológico.
b.1 Da Era Apostólica ao Início do Quinto Século: Já no primeiro período, a igreja estava perfeitamente cônscia dos elementos distintos da esperança cristã, como, por exemplo:
i. Que a morte física não é ainda a morte eterna.
ii. Que as Almas dos mortos continuam vivendo.
iii. Que Cristo virá outra vez.
iv. Que haverá uma bendita ressurreição do povo de Deus, que será seguida por um julgamento geral no qual a condenação eterna será pronunciada contra os ímpios, mas os fiéis serão recompensados com as glórias eternas do céu.
Mas, estes elementos eram simplesmente vistos como outras tantas partes separadas da esperança futura, e ainda não tinha sido elaboradas dogmaticamente. Embora fossem bem compreendidas os vários elementos, não se via claramente a sua interrelação. A princípio parecia que a escatologia estava no caminho certo para se tornar o centro da elaboração da doutrina cristã, pois nos dois primeiros séculos o quiliasma [doutrina que prega um milênio literal] era muito proeminente, conquanto não tão proeminente como alguns gostariam de fazer-nos acreditar.
b.2 Do Início do Quinto Século à Reforma Protestante: Sob a influência de Orígenes e Agostinho, conceitos antiquiliásticos se tornaram dominantes na igreja. Mas, embora estes conceitos fossem considerados ortodoxos, não foram ponderados exaustivamente, nem desenvolvidos sistematicamente. Em termos gerais cria-se nos seguintes pontos:
i. Havia uma crença geral na vida após a morte.
ii. Na segunda volta de Cristo.
iii. Na ressurreição dos mortos.
iv. No juízo final.
v. No reino da glória, mas muito pouca reflexão sobre o modo de sua ocorrência. A idéia de um reino material e temporal abriu caminho para as da vida eterna e da salvação futura.
Com o transcorrer do tempo, a igreja foi colocada no centro das atenções, e a igreja hierárquica foi identificada com o reino de Deus. Ganhou terreno a idéia de que fora da igreja não há salvação,e a de que a igreja determina o adequado treinamento pedagógico para o futuro. Muita atenção foi dada ao estado intermediário e, particularmente à doutrina do purgatório. Em conexão com isto, a mediação da igreja foi trazida para o primeiro plano – as doutrinas da missa, das orações pelos mortos e das indulgências. Como protesto contra este aclesiasticismo, o quiliasma apareceu em várias seitas. Em parte isto constituiu uma reação de natureza pietista contra o externalismo e a mundaneidade da igreja.
b.3 Da Reforma Protestante aos Dias Atuais: O pensamento da reforma centralizou-se primariamente em torno da idéia da aplicação e apropriação da salvação, e procuravam desenvolver a escatologia principalmente segundo este ponto de vista. Muitos trataram dela apenas como um adjunto da soteriologia, focalizando a glorificação dos crentes. A reforma adotou o que a igreja primitiva ensinava a respeito do retorno de Cristo, da ressurreição, do juízo final e da vida eterna, e pôs de lado a crassa forma de quiliasma que apareceu nas seitas anabatistas. Em sua oposição a Roma, também refletiu bastante sobre o estado intermediário e rejeitou os diversos dogmas desenvolvidos pela Igreja Católica. E a teologia liberal, atual, ignorou inteiramente os ensinos escatológicos de Jesus e deu toda a ênfase aos seus preceitos éticos.
c. A relação da Escatologia com o Restante da Dogmática
d. O Nome Escatologia
O nome “escatologia” baseia-se nas passagens da Escritura que falam sobre “os últimos dias” (eschatai hemerai) Is 2:2; Mq 4:1, os “últimos tempos” (eschatos ton chronon), I Pe 1:20,e “a última hora” (eschate hora), I Jo 2:18.
e. O Conteúdo da Escatologia
e.1 A Escatologia Geral: É costume falar da série de eventos ligados ao retorno de Jesus Cristo e ao fim do mundo como constituindo a escatologia geral – uma escatologia que diz respeito a todos os homens. Os assuntos que requerem consideração nesta divisão são o retorno de Cristo, a ressurreição geral, o juízo final, a consumação do reino e a condição final dos justos e dos ímpios.
e.2 A escatologia Individual: As coisas referentes à condição do indivíduo, entre a sua morte e a ressurreição geral, pertencem à escatologia pessoal e individual. A morte física, a imortalidade da alma e a condição intermediária requerem discussão aqui.
